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Valor em Saúde

Descentralização do cuidado só gera valor com foco em desfechos, coordenação e uso inteligente de recursos, afirma IBRAVS

9 de agosto de 2025 Por IBRAVS
descentralização do cuidado

Relatório internacional destaca os impactos positivos de levar o cuidado para mais perto do paciente — mas, segundo o IBRAVS, descentralizar não basta: é preciso integrar dados, medir resultados e alinhar incentivos para gerar valor real em saúde. Um novo relatório da consultoria internacional Frontier View analisa os impactos da descentralização do cuidado em países como Reino Unido, Singapura, Holanda e Bélgica. A pesquisa demonstra que, ao reorganizar os serviços de saúde para que o atendimento ocorra fora do ambiente hospitalar — sempre que clinicamente possível — os sistemas conseguiram melhorar o acesso, reduzir internações e otimizar recursos. Para o Instituto Brasileiro de Valor em Saúde (IBRAVS), as experiências são promissoras, mas os ganhos reais só acontecem quando essas estratégias são acompanhadas por coordenação, dados e foco em desfechos. O conceito de descentralização do cuidado envolve deslocar parte do cuidado para unidades básicas de saúde, ambulatórios ou até a casa do paciente. A proposta busca aliviar a pressão sobre os hospitais, ampliar o acesso, promover a continuidade do cuidado e oferecer uma experiência mais personalizada e humana. Resultados internacionais com a descentralização do cuidado Apresentado em julho, em Brasília, o relatório reúne dados concretos de quatro países. O Reino Unido registrou 800 mil internações a menos em 2022, em comparação com 2019, ao expandir o cuidado fora dos hospitais. Singapura poupou 7 mil dias de internação com o programa MIC@Home. A Holanda economiza 2 milhões de euros anualmente com o uso de cuidados remotos, enquanto a Bélgica reduziu em 15% as readmissões hospitalares de pacientes com insuficiência cardíaca. Descentralização do cuidado e a saúde baseada em valor (VBHC) Para o presidente do IBRAVS, César Abicalaffe, essas experiências evidenciam caminhos possíveis, mas não devem ser confundidas com uma adoção automática da saúde baseada em valor. “Descentralizar, por si só, não é sinônimo de gerar valor. Pode até criar novas ineficiências se for feita sem coordenação, sem mensuração de resultados e sem foco real naquilo que importa para o paciente”, afirma. Segundo ele, a descentralização só se alinha aos princípios do VBHC quando está a serviço de uma entrega de valor mensurável: quando contribui para melhorar os desfechos clínicos, otimizar a experiência do cuidado e utilizar recursos de forma sustentável. “O que define se há valor não é o local onde o cuidado acontece, e sim o impacto desse cuidado na vida das pessoas — se elas estão melhores, se evitamos complicações, se o sistema aprendeu com cada atendimento.” O papel do Brasil na descentralização com foco em valor O IBRAVS defende que o Brasil tem condições de avançar com uma agenda estruturada nesse campo, aproveitando sua tradição em atenção primária — como a Estratégia Saúde da Família — e conectando-a a uma lógica clara de accountability por desfechos. “Precisamos transformar isso em estratégia de saúde baseada em valor, com sistemas de informação integrados, avaliação contínua e modelos de remuneração que premiem resultados, e não apenas a produção de serviços”, afirma Abicalaffe. Desafios para transformar descentralização em valor real No país, diversas iniciativas locais já indicam movimentos em direção à descentralização, mas ainda de forma fragmentada e sem diretrizes nacionais. O desafio, segundo o IBRAVS, é transformar essas experiências em política pública estruturada, com metas claras e alinhamento entre os diferentes níveis do sistema. “Descentralizar não é um fim em si mesmo. Só se torna uma estratégia transformadora quando está a serviço do valor — para quem mais importa: o paciente.”

Categorias Valor em Saúde Tags atenção primária, coordenação do cuidado, descentralização do cuidado, desfechos em saúde, eficiência em saúde, Saúde baseada em valor, sistemas de saúde, vbhc Deixe um comentário

Da Jornada ao Protocolo: como a Saúde Baseada em Valor e os Dados de Vida Real estão transformando a assistência

22 de julho de 202522 de julho de 2025 Por IBRAVS
Da Jornada ao Protocolo

Em um sistema de saúde cada vez mais pressionado por demandas crescentes, recursos limitados e expectativas por resultados mais efetivos, termos como jornada do paciente, linha de cuidado, guidelines, diretrizes clínicas e protocolos clínicos ganham centralidade no planejamento e na gestão. Mais do que nomenclatura, é fundamental compreender o que cada um desses conceitos representa, como se inter-relacionam e, sobretudo, como podem ser aprimorados à luz da Saúde Baseada em Valor (VBHC) e dos dados de vida real (Real-World Data — RWD). Este artigo apresenta uma visão clara e estruturada sobre esses instrumentos, mostrando como a integração de dados clínicos e de experiências reais reportadas pelo paciente pode transformar decisões clínicas, operacionais e políticas. Entendendo os Conceitos Fundamentais Antes de aprofundar cada definição, é importante entender que esses instrumentos — jornada do paciente, linha de cuidado, guidelines, diretrizes clínicas e protocolos — não existem de forma isolada. Cada um deles cumpre um papel complementar no desenho de um cuidado mais coordenado, eficiente e centrado no paciente. Com a adoção da Saúde Baseada em Valor e o uso de dados de vida real, esses conceitos passam a ser ferramentas dinâmicas, permitindo redesenhar fluxos, monitorar resultados reais e promover melhorias contínuas. Jornada do Paciente A jornada do paciente representa a experiência real e subjetiva do paciente desde os primeiros sintomas até o desfecho do cuidado. Esse conceito refere-se não apenas aspectos clínicos, mas também logísticos, emocionais e financeiros. Conhecê-la e compreendê-la é essencial para identificar barreiras de acesso e oportunidades de melhoria. Linha de Cuidado Linhas de cuidado são planos ou diretrizes padronizados e baseados em evidências que descrevem a sequência e o tempo de intervenções e tratamentos para condições ou procedimentos médicos específicos.  Elas representam os processos de atendimento de um determinado paciente com uma condição clínica específica em função de sua complexidade clínica (cluster). As linhas de cuidado devem contemplar todos os marcos assistenciais que o paciente (idealmente) deve ter durante um período de tempo visam garantir continuidade, integralidade e resolubilidade do cuidado. Guideline Clínico Os guidelines clínicos são documentos produzidos por sociedades científicas com base em revisões sistemáticas da literatura. São eles que fornecem recomendações de conduta clínica com grau de evidência e força de recomendação, por exemplo. Diretriz Clínica Já as diretrizes clínicas, estão consolidadas em um documento normativo, usualmente nacional, que orienta a conduta terapêutica padronizada nos sistemas de saúde. Essa diretriz pode ser baseada em consensos técnicos e considera também aspectos de viabilidade, custo e organização dos serviços. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) E, por último, temos os protocolos clínicos e as diretrizes terapêuticas (PCDT) tratam-se de documentos oficiais elaborados no âmbito do SUS para padronizar o acesso a medicamentos e terapias. São ambos que determinam critérios de inclusão e exclusão, formas de acompanhamento e avaliação de resultados de cada tratamento. Tabela Comparativa: Características Centrais Antes de avançar para a aplicação prática de cada conceito, a tabela abaixo resume de forma comparativa as principais características, bases e objetivos de cada instrumento. Essa visão geral facilita a compreensão das diferenças e complementaridades entre jornada do paciente, linha de cuidado, guidelines, diretrizes clínicas e PCDT. Instrumento Foco Principal Base Objetivo Responsável Típico Jornada do Paciente Experiência vivida Realidade do paciente Entender barreiras e vivências reais Pacientes, instituições, pesquisa Linha de Cuidado Processo assistencial Rede de serviços Coordenar a continuidade do cuidado Prestadores, Gestores e operadoras Guideline Clínico Evidência científica Revisão sistemática Padronizar boas práticas clínicas Sociedades médicas, OMS Diretriz Clínica Padronização nacional Consenso + evidências Uniformizar condutas assistenciais Ministério da Saúde, ANS PCDT Acesso e regulação Evidência + economia Garantir acesso regulado no SUS CONITEC / Ministério da Saúde Como o VBHC e os Dados de Vida Real Impactam Cada Instrumento Feitas essas considerações conceituais, é importante entender como a integração da Saúde Baseada em Valor (VBHC) e dos dados de vida real (RWD) potencializa cada um desses instrumentos. A tabela a seguir resume de forma clara o papel dos dados reais e as contribuições do VBHC para cada conceito abordado. Instrumento Papel dos Dados de Vida Real (RWD) Contribuição do VBHC Jornada do Paciente Capta PROMs/PREMs, adesão, tempos de espera, qualidade de vida Informa a avaliação de valor percebido pelo paciente Linha de Cuidado Avalia fluxos reais, identifica gargalos, compara com o desenho ideal Permite medir valor durante um ciclo de avaliação para grupos de pacientes Guideline Clínico Complementa RCTs, cobre populações subrepresentadas Incorpora desfechos que importam na vida real Diretriz Clínica Suporta revisões baseadas em efetividade, não apenas eficácia Alinha padronização com entregas de valor PCDT Subsidia reavaliações e monitoramento de incorporações Sustenta modelos de pagamento por performance Transformando teoria em prática: caminhos para gestores, operadoras e indústria A transição para um modelo baseado em valor exige repensar a forma de produzir, interpretar e aplicar informações em saúde. Para cada ator do ecossistema, existem oportunidades práticas e estratégicas: • Gestores públicos: reavaliar protocolos com base na efetividade real, otimizar recursos e promover maior equidade no acesso e nos resultados. • Operadoras de saúde: redesenhar linhas de cuidado com foco em desfechos clínicos, adesão e redução de desperdícios, além de firmar contratos baseados em valor com a rede prestadora. • Indústria farmacêutica e de dispositivos: utilizar dados do mundo real para embasar decisões e adotar contratos ou acordos baseados em valor para a incorporação de tecnologias. Convergência de valor e dados: um novo ciclo para a saúde A convergência entre modelos baseados em valor e o uso sistemático de dados de vida real inaugura um novo ciclo na saúde. Neste ciclo, instrumentos como jornada, linha de cuidado, guidelines e protocolos deixam de ser estruturas estáticas e passam a ser ferramentas dinâmicas, orientadas por aquilo que realmente importa: o valor gerado para o paciente e para o sistema como um todo. Profissionais da saúde, gestores, reguladores e a indústria têm, juntos, a oportunidade de transformar conhecimento em cuidado mais inteligente, eficiente e centrado em resultados reais.

Categorias Valor em Saúde Tags Jornada do paciente, Linha de cuidado, Protocolos clínicos, valor em saúde, vbhc Deixe um comentário

Modelos populacionais no VBHC: até que ponto são viáveis no Brasil?

10 de julho de 2025 Por IBRAVS
Eduardo Maia, SAS

A promessa de um cuidado preventivo, mais inteligente e menos fragmentado, tem ganhado força na discussão sobre Value-Based Health Care (VBHC) no Brasil. Em um sistema ainda guiado majoritariamente por modelos de remuneração por evento (Fee-for-Service), os modelos populacionais surgem como alternativa para romper com a lógica reativa e promover um cuidado que antecipa o adoecimento. Mas até que ponto esse modelo é viável, especialmente em um país com sistemas tão fragmentados quanto o Brasil? Quando se fala em modelos populacionais baseados em valor, segundo Eduardo Maia — sócio fundador da SAS (Soluções Avançadas em Saúde) e Diretor Geral do Hospital Municipal Oceânico Gilson Cantari, em Niterói (RJ) —, mais do que tecnologia ou infraestrutura, é preciso transformar o desenho dos contratos, os incentivos financeiros e, sobretudo, a cultura do sistema. Prevenção: o elo fraco dos modelos por evento Segundo dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), cada dólar investido em prevenção gera uma economia de quatro dólares no sistema de saúde. Ainda assim, os modelos baseados em evento tendem a ignorar as prevenções primária e secundária, justamente por não haver receita atrelada a algo que ainda não aconteceu. “No melhor cenário, os pagamentos por eventos remuneram a prevenção terciária e quaternária, exatamente devido ao impacto econômico em menor prazo”, explica Maia. Nos modelos populacionais, o raciocínio se inverte: a população é composta majoritariamente por pessoas saudáveis ou assintomáticas, e os eventos agudos deixam de ser receita para se tornarem custo operacional. Quanto mais eventos evitáveis forem reduzidos, melhor o desempenho. “Tantos eventos evitáveis de curto quanto de longo prazo fazem parte do escopo desse modelo. Isso é tanto mais apropriado quanto mais duradouro for o contrato.” A solução, diz ele, está no desenho inteligente da remuneração. “É preciso balancear os objetivos de curto e longo prazo. Critérios como cobertura vacinal ou controle de hemoglobina glicada são desfechos substitutos que podem ser utilizados para valorizar a prevenção, mesmo quando seus resultados levarem anos a aparecer.” Quando a eficiência vira suboferta Um dos principais riscos dos modelos populacionais com foco em eficiência é que se transformem em mecanismos disfarçados de contenção de custos. Sem o monitoramento adequado de desfechos, pode haver desassistência. O caminho é progressivo: é preciso incorporar métricas, ferramentas de mensuração e mecanismos de ganho compartilhado que orientem o comportamento dos atores para o Quadruple Aim. A satisfação do paciente, nesse contexto, é um critério mínimo de segurança contra o risco de suboferta. “Contratos sem um componente variável e sem métricas que assegurem, no mínimo, a não inferioridade em relação ao FFS — especialmente quanto à satisfação do paciente — são consideravelmente mais vulneráveis à ocorrência de desassistência. Ainda assim, esse risco tende a ser menor quando há uma boa avaliação do prestador por parte dos pacientes”, explica. Fragmentação não é desculpa Maia afirma que modelos populacionais com pagamento por valor são viáveis mesmo em sistemas fragmentados como o brasileiro. A chave está nos incentivos. “Uma arquitetura de incentivos que prestigie economicamente a resolução de desperdícios estimula a integração da cadeia de valor.” Segundo ele, não há nenhum incentivo para que um prestador busque o resultado de um exame feito recentemente em outro serviço. “São milhões de exames laboratoriais, de imagens e pareceres repetidos, absolutamente redundantes e fúteis, que consomem os recursos do sistema sem agregar valor nenhum para o paciente. Pense nos dados de saúde ocupacional, desperdiçados em sua quase totalidade por quem busca aplicar a lógica da gestão de saúde a um grupo populacional.” A integração, como em qualquer outro setor da economia, torna-se uma vantagem competitiva. Quem busca melhorar margens passa a buscar eficiência. Accountability compartilhada: quebra de paradigmas Para que a responsabilidade por desfechos seja compartilhada entre prestadores e operadoras, é preciso repensar os modelos de relação. “A matemática de soma zero — onde um ganha o que o outro perde — é, segundo os economistas, a raiz do desperdício, da retenção econômica, dos litígios e, consequentemente, da desconfiança e da resistência”, afirma Maia. Ele propõe construir modelos que alinhem interesses: “Todos ganham com a saúde, a satisfação e a comerciabilidade dos planos; todos perdem com a doença, o sinistro e a insatisfação. É esse alinhamento que viabiliza a sustentabilidade de longo prazo.” Nesse sentido, o conceito de payvider (provider + payer) traduz não apenas um novo modelo de remuneração, mas um novo modelo de negócio, baseado em cocriação entre as partes. Outro ponto relevante é que os modelos populacionais no mercado privado brasileiro se enquadram no que se convenciona chamar de “inovação disruptiva”. Segundo Clayton Christensen, professor de Harvard e autor da teoria, as inovações mais transformadoras costumam surgir nas bordas do sistema — e não no centro, onde o status quo tende a resistir e sufocar mudanças. Para Christensen, é nas periferias, onde há menos recursos, menos status e menos atenção, que existe mais espaço para experimentar. As recomendações, então, são: comece pequeno e pela periferia; estruture um modelo payvider (preferencialmente com prestadores ou operadoras que já tenham alguma experiência); pilote uma operação, aprenda com os resultados e, então, expanda o modelo. Sem dados, sem valor Um dos maiores desafios para os modelos populacionais é a ausência de dados longitudinais e de interoperabilidade. Mas, para Maia, isso não pode ser desculpa para a imobilidade. “O ótimo é inimigo do bom. A interoperabilidade é um ideal, mas historicamente nunca foi impeditivo para a gestão em saúde no mundo. O que falta é uma cultura de análise longitudinal, praticamente inexistente nos relatórios de sinistros por eventos (fee-for-service)”, afirma. O primeiro passo está no uso inteligente dos dados já disponíveis nas operadoras. “Mesmo sem interoperabilidade, é possível atribuir vidas, estimar carga de doença e identificar desperdícios. A questão não é tecnológica, mas cultural.” Segundo Maia, a evolução virá de forma progressiva. “Com o tempo, a troca de dados econométricos e epidemiológicos entre os parceiros gera conhecimento e oportunidades — inteligência — para o payvider, ampliando sua capacidade de identificar e resolver desperdícios. A infraestrutura se desenvolve como consequência natural do ganho de … Ler mais

Categorias Valor em Saúde Tags accountability, desfechos, Eduardo Maia, integração em saúde, interoperabilidade, modelos populacionais, pagamento por valor, payvider, prevenção, vbhc Deixe um comentário

Por que a odontologia suplementar ainda resiste à saúde baseada em valor?

16 de junho de 2025 Por IBRAVS
Fabio Nogi

Fabio Nogi aponta os entraves culturais, estruturais e tecnológicos que freiam a adoção do VBHC na odontologia suplementar — e alerta para os riscos de manter o modelo atual. A promessa de uma odontologia mais resolutiva e centrada no que realmente importa para o paciente avança lentamente no setor suplementar. Conceitos como saúde baseada em valor (VBHC), desfechos clínicos e medidas autorrelatadas ganham força em outras áreas, mas na prática odontológica ainda prevalece um modelo fragmentado, focado no volume de procedimentos e com baixa integração entre os atores. Com mais de 20 anos de atuação na saúde suplementar, Fabio Massaharu Nogi, Superintendente de Inovação e Odontologia na Seguros Unimed, analisa os entraves que travam a transformação do setor — e o que está em jogo se ela não acontecer. O modelo tradicional e o desalinhamento cultural Segundo Nogi — que também é diretor da SINOG, conselheiro consultivo do IBRAVS, membro do conselho da Yuni Digital e professor de MBA e pós-graduação —, a odontologia suplementar está somente começando sua jornada rumo ao VBHC. O modelo vigente ainda recompensa volume, não valor. Para que ocorra uma mudança significativa, é preciso repensar contratos e formas de remuneração, fortalecer a articulação entre operadoras, prestadores e pacientes, e investir em tecnologia capaz de gerar e analisar dados de desfecho com consistência. “Mais do que ferramentas, falta alinhamento estratégico e cultural. É necessário engajar todos os atores em um novo propósito, que vá além da entrega de procedimentos e coloque o bem-estar e a experiência do paciente no centro”, afirma. Medir o que importa: o papel dos desfechos e da experiência No campo dos indicadores, o AOHSS (Adult Oral Health Standard Set) reúne métricas clínicas e autorrelatadas (PROMs), abrangendo dor, estética e impacto psicossocial. Também se destacam instrumentos como OHIP e OIDP, voltados à qualidade de vida relacionada à saúde bucal. “Esses indicadores captam o impacto real das condições bucais na vida das pessoas, indo além do aspecto clínico e incluindo dimensões emocionais e sociais”, diz Nogi. No entanto, ele reconhece que o uso ainda é incipiente no Brasil. Para que ganhem tração, é preciso alinhar incentivos e mostrar, na prática, os benefícios tanto para profissionais quanto para pacientes. “Sem perceber valor, nenhum dos dois irá se engajar.” Além disso, as ferramentas precisam ser adaptadas ao contexto brasileiro — com linguagem acessível, aplicabilidade local e integração ao fluxo assistencial. Da coleta de dados à ação: desafios para dar voz ao paciente Coletar PROMs e PREMs não se resume a aplicar questionários. Para Nogi, trata-se de incorporar a perspectiva do paciente no processo de cuidado, o que exige infraestrutura tecnológica, capacidade analítica e uma mudança de mentalidade. Esse amadurecimento é essencial num cenário cada vez mais moldado por dados e inteligência artificial. “Sem ouvir o paciente, os profissionais perderão protagonismo frente à tecnologia.” Transformar essa escuta em ações concretas implica revisar processos, redimensionar o que se entende por sucesso clínico e redesenhar modelos assistenciais com foco na individualização. Confiança: o cimento dos modelos baseados em valor A transição para o VBHC depende da construção de confiança entre os atores do sistema, sustentada por quatro pilares: Definição conjunta de metas e indicadores, promovendo alinhamento e corresponsabilidade; Modelos de ganho compartilhado, que incentivem o foco nos desfechos; Relações colaborativas entre operadoras e prestadores, substituindo o viés fiscalizatório por práticas como revisão conjunta de casos; Cultura de experimentação, com pilotos e ciclos curtos de melhoria. “Sem espaço para testar e ajustar, corremos o risco de paralisar diante da complexidade da mudança”, afirma Nogi. Qualidade percebida: o primeiro passo do Triple Aim Entre os três objetivos do Triple Aim — melhorar o cuidado individual, a saúde populacional e reduzir custos —, Nogi defende que o primeiro deve ser prioridade na odontologia suplementar. Só a entrega de cuidado percebido como valioso pelo paciente cria engajamento e estabelece a base para metas populacionais e ganhos de eficiência. Ignorar essa etapa compromete a sustentabilidade de qualquer transformação. Personalização em escala: o futuro possível Historicamente, a padronização guiou os modelos de cuidado na odontologia suplementar. Com o avanço da tecnologia, torna-se possível personalizar — em escala — o cuidado, a partir de perfis clínicos específicos e interações com outras condições de saúde. “Pacientes com diferentes graus de periodontite podem ter planos de cuidado distintos, com metas específicas e conexões com doenças sistêmicas, como diabetes”, exemplifica Nogi. Essa diferenciação deve refletir também na remuneração: “o ideal é que a complexidade e os resultados orientem o pagamento.” Mais do que repetir protocolos, o desafio será criar fluxos assistenciais dinâmicos e responsivos, que conciliem integridade clínica e individualização. Educar o paciente é parte da transformação Muitos pacientes ainda associam valor a acesso rápido e cobertura ampla. Para que o modelo de valor avance, será preciso educar o público sobre o que realmente significa cuidado de qualidade: menos procedimentos desnecessários, mais prevenção, melhores desfechos e bem-estar no longo prazo. Esse processo exige uma comunicação clara, contínua e ancorada em exemplos práticos. O paciente precisa ser parceiro ativo — não apenas receptor de serviços. Valor exige cultura, colaboração e governança O maior obstáculo à disseminação do VBHC é cultural. “Ainda há receio de romper com modelos antigos, mesmo com tecnologias e frameworks já disponíveis”, afirma Nogi. Romper essa inércia exige uma agenda coletiva com participação de operadoras, prestadores, entidades de classe e órgãos reguladores, como a ANS. Além disso, é preciso evitar o erro de tratar o VBHC apenas como um novo modelo de pagamento. Trata-se de uma transformação sistêmica, que atravessa a organização do cuidado, o papel do paciente e a governança dos sistemas. “Valor não é custo. É o que de fato importa para o paciente”, conclui.

Categorias Valor em Saúde Tags desfechos clínicos, experiência do paciente, inovação em saúde bucal, odontologia suplementar, PREMs, PROMs, remuneração por valor, Saúde baseada em valor, transformação cultural, vbhc Deixe um comentário

Quais valores devem ser considerados na saúde? Um olhar aprofundado para a saúde baseada em valor

27 de maio de 202527 de maio de 2025 Por IBRAVS
Um olhar aprofundado para a saúde baseada em valor

Tradicionalmente, a avaliação de valor na saúde tem se concentrado na eficácia de custos, com foco na eficiência técnica e alocativa. No entanto, a evolução das políticas públicas e dos marcos conceituais em diversos países tem ampliado esse entendimento, incorporando aspectos éticos, sociais e individuais. Essa discussão é central para a implementação efetiva do modelo de Value-Based Health Care (VBHC). Os quatro pilares do valor na saúde Segundo o relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS), “Uma revisão global de cuidados baseados em valor: teoria, prática e lições aprendidas”, publicado pelo Escritório de País para a Índia (2025), o conceito de valor na saúde vem sendo expandido por diferentes jurisdições. A União Europeia, por exemplo, propõe uma estrutura conceitual baseada em quatro dimensões: Valor pessoal, que se refere ao cuidado apropriado para atingir os objetivos individuais dos pacientes; Valor técnico, que visa alcançar os melhores desfechos com os recursos disponíveis; Valor alocativo, focado na distribuição equitativa de recursos entre todos os grupos de pacientes; Valor social, que considera a contribuição do sistema de saúde para a participação social e a conexão comunitária. Princípios orientadores do NICE (Reino Unido) O National Institute for Health and Care Excellence (NICE), no Reino Unido, também definiu princípios para valorar o cuidado em saúde que abrangem aspectos morais como o respeito à autonomia, a não maleficência, a beneficência e a justiça distributiva. Esses princípios orientam a difícil tarefa de equilibrar tensões entre abordagens utilitaristas, que buscam maximizar a saúde da população, e igualitaristas, que defendem uma distribuição justa de oportunidades em saúde. O NICE ainda destaca a importância da justiça processual, garantindo a participação pública nas decisões, a possibilidade de contestação e revisão de decisões, e o uso de mecanismos públicos de regulação. Decisões devem ser fundamentadas em evidências clínicas e de saúde pública, levando em conta a efetividade, a custo-efetividade, a escolha individual, condições raras e o chamado “princípio do resgate”. Há ainda uma ênfase clara na não discriminação por fatores como raça, gênero, deficiência, status socioeconômico, idade ou condições estigmatizadas. Critérios emergentes nas revisões recentes sobre valor O relatório da OMS também aponta que revisões recentes identificaram uma ampla gama de critérios utilizados para avaliar tecnologias em saúde. Estudos como os de Cromwell et al. e Zhang et al. mostram que critérios como benefícios à saúde, acessibilidade, impacto social, carga da doença, qualidade da evidência, custo-efetividade, ética, equidade, necessidades não atendidas e inovação são frequentemente utilizados. A importância relativa desses valores pode variar de acordo com o contexto, o tipo de intervenção e o momento histórico, reforçando a necessidade de abordagens flexíveis e adaptáveis. Novos frameworks para avaliação de valor Reconhecendo as limitações da análise tradicional de custo-efetividade (CEA), diversos esforços internacionais vêm propondo modelos mais abrangentes. O Segundo Painel sobre Custo-Efetividade nos Estados Unidos sugere a inclusão de expectativas dos pacientes, questões legais, éticas, culturais e logísticas. Já a International Society for Pharmacoeconomics and Outcomes Research (ISPOR) desenvolveu o modelo Value Flower, que incorpora critérios econômicos, preocupações com justiça social e externalidades das tecnologias, especialmente no contexto de medicamentos e vacinas com custos crescentes. De quem são os valores considerados? Outra questão crítica abordada no relatório da OMS é a origem dos valores que devem orientar os sistemas de saúde. Os valores individuais dos pacientes nem sempre coincidem com os objetivos coletivos dos formuladores de políticas públicas. Em campanhas de vacinação, por exemplo, o direito individual de recusa pode entrar em conflito com a necessidade de alcançar a imunidade coletiva. Países como o Reino Unido e estados norte-americanos como Oregon vêm adotando abordagens mais inclusivas, reconhecendo a importância de integrar múltiplas perspectivas no processo decisório. Mecanismos de participação cidadã Governos têm adotado diversas estratégias para promover a participação pública nas decisões em saúde. No Reino Unido, o NICE conta com um conselho de cidadãos como instância formal de engajamento. Outras iniciativas incluem júris de cidadãos, reuniões comunitárias, enquetes de opinião, consultas públicas online e documentos de consulta compartilhados com grupos representativos. Essas práticas reforçam a legitimidade e a transparência das decisões, alinhando-se aos princípios da justiça processual. Como agregar diferentes valores na tomada de decisão? Frente à diversidade de valores em jogo, o relatório destaca a importância de frameworks que combinem análises técnicas com processos deliberativos envolvendo múltiplos stakeholders. Modelos como a Análise de Decisão Multicritério (MCDA), o EVIDEM (Evidence and Value: Impact on Decision Making) e a Análise Orçamentária Programática Marginal (PBMA) permitem ponderar diferentes critérios conforme sua relevância no contexto analisado. A atribuição de pesos pode ser feita por meio de painéis Delphi ou experimentos quantitativos, oferecendo maior precisão e legitimidade ao processo decisório. Conclusão: uma abordagem contextual, inclusiva e dinâmica Conforme destaca o relatório da OMS, não existe uma fórmula única ou universal para definir os valores que devem nortear os sistemas de saúde. O modelo de saúde baseada em valor (VBHC) exige uma abordagem contextualizada, que combine eficiência, equidade, evidência científica e participação cidadã. Além dos tradicionais indicadores de desfechos clínicos e experiências relatadas pelos pacientes (PROMs, PREMs e CROMs), é fundamental considerar critérios éticos, sociais e culturais para assegurar que o sistema de saúde gere valor real para as pessoas.

Categorias Valor em Saúde Tags avaliação de tecnologias em saúde, custo-efetividade, decisão em saúde pública, eficiência em saúde, EVIDEM, frameworks de valor em saúde, ISPOR, justiça em saúde, MCDA, NICE, participação cidadã em saúde, vbhc Deixe um comentário

Tecnologia e Informação: a espinha dorsal da Saúde Baseada em Valor

22 de maio de 2025 Por IBRAVS
Sistemas de Informação em Saúde

A implementação da Saúde Baseada em Valor (VBHC) exige mais do que boas intenções e mudanças nos modelos de pagamento. Ela depende fundamentalmente de sistemas de informação robustos, integrados e centrados no paciente. São eles que tornam possível conectar equipes de cuidado, mensurar desfechos, monitorar custos e promover a coordenação necessária para que o cuidado realmente gere valor. O papel dos sistemas de informação em um modelo baseado em valor Os sistemas de informação são o alicerce que sustenta a aplicação prática dos pilares da VBHC. Eles fornecem os dados necessários para: Integrar serviços e equipes, especialmente em Unidades de Prática Integrada (IPUs); Medir desfechos clínicos (CROMs), desfechos reportados pelo paciente (PROMs), custos e uso de recursos; Viabilizar modelos inovadores de pagamento baseados em valor. No entanto, na maioria dos países – inclusive no Brasil – os sistemas de informação em saúde ainda são fragmentados. Dados sobre tratamentos, diagnósticos, exames, medicamentos, custos e satisfação do paciente estão espalhados por diferentes plataformas, o que dificulta uma visão holística da jornada do paciente e prejudica a coordenação do cuidado. Características ideais de um sistema de TI orientado ao valor Para apoiar uma jornada baseada em valor, um sistema de informação em saúde precisa ter algumas características fundamentais: Centralidade no paciente: os dados devem acompanhar o paciente ao longo de sua jornada, independentemente da instituição ou profissional envolvido. Acesso compartilhado e seguro: todos os profissionais envolvidos no cuidado devem poder acessar, de forma autorizada, o prontuário completo do paciente – com histórico clínico, diagnósticos, exames, intervenções e medicamentos. Padronização: uso de nomenclaturas comuns e classificações padronizadas para doenças, exames e procedimentos facilita a comunicação, análise e comparação entre diferentes instituições. Templates clínicos e apoio à decisão: modelos específicos para diferentes condições clínicas, construídos com participação de profissionais de saúde, facilitam a coleta padronizada e o uso inteligente dos dados. Arquitetura aberta e interoperável: o sistema deve permitir extração de dados, geração de dashboards e integração com outras plataformas, respeitando os padrões de segurança e privacidade. Exemplos internacionais que inspiram Diversos países já iniciaram a construção de sistemas de informação orientados ao valor: NHS Wales (Reino Unido) implementou um programa nacional de VBHC com foco em interoperabilidade e coleta de PROMs via uma plataforma nacional de dados. CMS (EUA) promoveu incentivos financeiros para a adoção de prontuários eletrônicos interoperáveis (EHRs) e estabeleceu organizações regionais de troca de informações (HIEs). NSW (Austrália) criou a plataforma HOPE para integrar PROMs aos EHRs, conectando-os a um portal de dados do governo. MomCare (Quênia e Tanzânia) usa uma solução digital integrada para cuidados em saúde materna, conectando pacientes, prestadores e pagadores. A plataforma coleta dados clínicos e socioeconômicos, usa SMS para engajamento e permite visualização de resultados em dashboards acessíveis aos profissionais. O Brasil está preparado? Apesar dos avanços com o Meu SUS Digital (Antigo Conecte SUS) e outras iniciativas locais, o Brasil ainda enfrenta desafios estruturais em interoperabilidade, padronização de dados e acesso a informações compartilhadas. No contexto da VBHC, é urgente: Promover investimentos em infraestrutura digital para saúde; Estimular o uso de prontuários eletrônicos interoperáveis, com foco no paciente e não apenas na instituição; Estabelecer padrões nacionais de dados clínicos e PROMs; Criar incentivos para que hospitais, clínicas e operadoras compartilhem dados de forma segura e coordenada. Conclusão: dados como ativos para a transformação Sistemas de informação são mais do que ferramentas operacionais – são ativos estratégicos para viabilizar a transformação da saúde baseada em valor. A integração de dados, a centralidade no paciente e a interoperabilidade são pré-requisitos para medir o que importa, melhorar a experiência do paciente e aprimorar os resultados com sustentabilidade. No Brasil, o avanço para uma saúde baseada em valor depende de um projeto nacional de arquitetura de dados em saúde. Sem isso, VBHC será apenas uma ideia poderosa, mas desafiadora na prática.

Categorias Valor em Saúde Tags Dados em saúde, Informação centrada no paciente, Interoperabilidade em Saúde, PROMs e CROMs, Prontuário Eletrônico, Saúde baseada em valor, Sistemas de Informação em Saúde, Tecnologia em saúde, Transformação digital na saúde, Value-Based Health Care Deixe um comentário

Por que a saúde baseada em valor está ganhando tanta força no mundo?

13 de maio de 2025 Por IBRAVS
saúde baseada em valor

A maneira como enxergamos a saúde dentro do sistema determina as decisões que tomamos em relação a ela. Se a encaramos apenas como um custo, a tendência natural é buscar maneiras de reduzi-lo. Se a consideramos um item do orçamento, as políticas adotadas serão de curto prazo, limitadas ao período de vigência daquele orçamento. Esse é o caso típico das políticas de saúde de governos, que frequentemente não são políticas de Estado, mas de gestão temporária. Produção em massa ou resultados reais para o paciente? Por outro lado, se enxergarmos a saúde como um mecanismo para maximizar receita, o resultado pode ser um aumento no volume e na complexidade dos atendimentos — nem sempre com impacto positivo nos desfechos clínicos. O que o setor deveria buscar é um modelo de gestão que priorize os resultados que realmente importam para o paciente, sempre em relação ao custo em saúde necessário para produzi-los. Essa é a essência da saúde baseada em valor (VBHC – Value-Based Health Care). Valor: a equação entre desfechos e custos A relação entre os desfechos obtidos para o paciente e os recursos necessários para alcançá-los é o eixo central desse conceito. Como dizia Alan Maynard, professor da Universidade de York: focar apenas nos resultados sem considerar os custos é como ter uma carroça sem cavalos para puxá-la. A eficiência na alocação de recursos precisa andar lado a lado com a qualidade assistencial. Pesquisas e experiências internacionais impulsionam o modelo O consórcio entre o Boston Consulting Group e o Instituto Karolinska consolidou essa visão, demonstrando que um sistema de saúde baseado em valor busca entregar os melhores desfechos clínicos possíveis com o menor custo em saúde. Estudos como os do ICHOM (International Consortium for Health Outcomes Measurement) mostram que a adoção desse modelo pode transformar a maneira como os serviços de saúde são prestados. Por que agora? Variação na qualidade e explosão de custos Mas o que fez com que esse conceito ganhasse tanta força globalmente? A enorme variação na qualidade dos serviços de saúde O crescimento acelerado dos custos no setor Pesquisas indicam que, mesmo em países desenvolvidos, a variabilidade nos desfechos clínicos é alarmante. Na Alemanha, por exemplo, a taxa de reoperação em cirurgias de quadril variou 18 vezes entre hospitais. Essa disparidade levantou questionamentos importantes: como é possível haver tamanha diferença na entrega de cuidados dentro de um mesmo país? O que realmente importa para o paciente Comparando os resultados da Alemanha e da Suécia com os da Martini Clinic — referência europeia em cirurgia de próstata — os dados mostraram taxas de sobrevida semelhantes. No entanto, ao analisar desfechos que realmente importam para o paciente, como incontinência urinária e disfunção erétil, as diferenças ficaram evidentes. Isso reforça um ponto essencial: medir qualidade em saúde exige foco no que realmente impacta a vida do paciente. A insustentabilidade do atual ritmo de gastos O segundo fator que impulsionou a saúde baseada em valor foi o descolamento crescente entre os custos em saúde e a geração de riqueza dos países. Em diversas nações, os gastos com saúde aumentam em ritmo muito superior ao crescimento do PIB. Esse cenário se repete em sistemas públicos, como o inglês, e privados, como o dos EUA. No Brasil, a inflação médica cresce acima do IPCA, pressionando operadoras, hospitais e pacientes. Quatro pilares para viabilizar a mudança Para viabilizar a transição para um sistema mais sustentável, algumas ações estratégicas são fundamentais. O framework do Boston Consulting Group destaca quatro pilares: Interoperabilidade – informações do paciente acessíveis e integradas. Benchmarks e analytics – comparar práticas assistenciais e identificar as mais eficazes. Modelos de remuneração por valor – recompensar prestadores com base nos resultados entregues. Mudanças organizacionais – criar incentivos para equipes focadas em entregar valor. Um movimento coletivo por eficiência e impacto Essa transição exige esforço, mas responde a uma necessidade real: garantir que cada recurso investido gere o maior impacto positivo possível nos desfechos clínicos dos pacientes, com o melhor custo-benefício possível. A implementação da saúde baseada em valor exige colaboração entre todos os agentes da cadeia: hospitais, operadoras, profissionais de saúde, indústria farmacêutica e empresas de tecnologia. Apenas com esforços coordenados será possível construir um sistema mais eficiente, justo e centrado no paciente. Caminhos para uma saúde mais sustentável É preciso investir em métricas padronizadas, novos modelos de remuneração e fortalecer a cultura organizacional voltada para resultados em saúde. Quando bem estruturado, esse modelo pode ser a chave para um sistema mais sustentável, eficiente e acessível para todos.

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O que é VBHC (Value-Based Health Care) e por que ele é essencial para o futuro da saúde?

3 de abril de 2025 Por IBRAVS
Value-Based Healthcare

Se você ainda ignora o VBHC, já está atrasado. O modelo de assistência à saúde baseado em valor, conhecido como Value-Based Health Care (VBHC), está transformando a maneira como os serviços de saúde são organizados, prestados e remunerados. Em vez de um sistema centrado no volume de procedimentos realizados, o VBHC coloca o paciente no centro das decisões, priorizando desfechos clínicos efetivos e a eficiência dos recursos. Como funciona o modelo de Value-Based Health Care? O conceito de saúde baseada em valor, amplamente difundido a partir dos estudos de Michael Porter e Elizabeth Teisberg, busca alinhar incentivos para que hospitais, médicos, operadoras de saúde e toda a cadeia envolvida trabalhem de maneira coordenada. O objetivo é melhorar a qualidade dos tratamentos, reduzir desperdícios e garantir que os investimentos no setor tenham um impacto real na vida dos pacientes. Quais são os principais benefícios e desafios do VBHC? A adoção desse modelo traz vantagens significativas, como a melhoria na qualidade assistencial e a maior eficiência operacional através de um importante alinhamento de interesse entre os stakeholders. No entanto, sua implementação também enfrenta desafios, como a necessidade de métricas padronizadas para medir os resultados clínicos e os custos, a interoperabilidade dos sistemas de saúde para facilitar a troca de informações e a mudança cultural entre profissionais de saúde, hospitais e operadoras. Como acelerar a transição para a saúde baseada em valor? Para uma adoção mais eficiente do VBHC, as instituições devem: Investir em sistemas de informações interoperáveis, permitindo acesso a dados em todo o ciclo do cuidado. Definir e acompanhar métricas de qualidade e de custos, possibilitando entender o que efetivamente está sendo entregue aos pacientes. Adotar modelos alternativos de pagamento onde o ganho seja em função do valor gerado aos pacientes e ao sistema de saúde. O futuro do VBHC A adoção do VBHC não é um processo simples, mas seus benefícios são evidentes. Com foco nos resultados clínicos e na experiência do paciente, o setor de saúde caminha para um modelo mais sustentável, eficiente e alinhado às necessidades reais da sociedade. O VBHC não é mais uma tendência, mas uma necessidade. Já parou para pensar como sua instituição está se preparando para essa transformação?

Categorias Valor em Saúde Tags Eficiência na saúde, Modelo de assistência à saúde, Pagamento por valor na saúde, Qualidade no atendimento médico, Saúde baseada em valor, Sustentabilidade no setor de saúde, Transformação digital na saúde, Value-Based Health Care, vbhc Deixe um comentário

Quais são os modelos de pagamento em saúde e como se conectam ao VBHC?

19 de março de 202513 de março de 2025 Por IBRAVS
Modelos de Remuneracao em saúde e VBHC

Com a crescente necessidade por sustentabilidade no setor, novos modelos de pagamento foram desenvolvidos para alinhar incentivos financeiros à entrega de um cuidado mais eficiente e centrado no paciente. Em vez de remunerar exclusivamente pelo volume e pela complexidade de serviços prestados, essas abordagens buscam recompensar adequados desfechos clínicos e o impacto real na saúde dos indivíduos. Dentro desse contexto, surge o conceito de Value-Based Healthcare (VBHC), ou saúde baseada em valor, que propõe uma mudança na lógica de remuneração para privilegiar os resultados clínicos que importam aos pacientes a um custo adequado. Mas como esses modelos funcionam na prática? Quais são as principais diferenças entre eles? Neste artigo, exploramos a classificação dos modelos de pagamento baseados em valor e como eles se conectam ao VBHC para transformar a assistência à saúde. A transição do pagamento por volume para o pagamento por valor Historicamente, a remuneração em saúde foi dominada pelo modelo de Fee for Service (FFS), pelo qual cada serviço é pago separadamente, incentivando a quantidade e a complexidade dos procedimentos sem necessariamente considerar a efetividade do cuidado. Esse modelo, embora ainda amplamente utilizado, tem sido progressivamente substituído ou combinado com novas abordagens que priorizam a qualidade dos resultados. O VBHC surge justamente para alinhar incentivos financeiros à entrega de um atendimento mais eficiente e focado na melhoria da saúde dos pacientes. Dentro dessa proposta, diferentes modelos de remuneração foram desenvolvidos para refletir esse novo paradigma. Principais modelos de remuneração baseados em valor Pagamento por desempenho (pay for performance – P4P) O modelo pay for performance (P4P) combina a lógica do Fee for Service com incentivos atrelados à qualidade da assistência prestada. Em outras palavras, os prestadores continuam recebendo por serviço, mas podem ganhar bonificações ao atingirem metas de qualidade, como redução de reinternamentos, controle glicêmico de pacientes diabéticos ou melhora da satisfação do paciente. Esse modelo tem sido utilizado como um meio-termo para a transição entre o pagamento por volume e abordagens mais avançadas baseadas em valor. Pagamentos por episódio de cuidado (bundled payments) No modelo de bundled payments, os prestadores de serviços recebem um pagamento fixo para cobrir todos os custos de um episódio específico de tratamento, como uma cirurgia de prótese de quadril ou o manejo de uma doença crônica por um período determinado. Essa abordagem traz previsibilidade de receita e incentiva a coordenação entre diferentes profissionais de saúde e a otimização dos recursos, pois o prestador precisa garantir que o tratamento seja eficaz (entregue os desfechos mínimos previstos) no orçamento previsto. Capitation e modelos de gestão populacional O modelo capitation estabelece um pagamento fixo por paciente atendido, independentemente da quantidade de serviços prestados. Essa abordagem pode ser dividida em duas categorias: Capitation parcial: cobre apenas determinados serviços, como atendimento primário. Capitation global: cobre todos os serviços necessários dentro de um sistema de saúde. Esse modelo pode estimular a prevenção, pois os prestadores têm interesse em manter os pacientes saudáveis para evitar complicações futuras, porém a boa prática é considerar o ajuste de risco populacional e métricas de desfechos para que não ocorra sub-tratamento. É amplamente utilizado em sistemas universais de saúde, como o NHS, no Reino Unido, e em iniciativas de cuidado coordenado, como as Accountable Care Organizations (ACOs) nos Estados Unidos, que promovem uma gestão integrada da saúde dos pacientes. A relação entre VBHC e os modelos de pagamento Os modelos de pagamento baseados em valor estão diretamente ligados ao Value-Based Healthcare por promoverem uma mudança de foco: em vez de remunerar pelo volume de serviços, incentivam melhores desfechos clínicos e a eficiência na utilização dos recursos. Os modelos de P4P, Bundle e Capitation possuem níveis diferentes de transferência de risco e da responsabilização ao cuidado ao prestador. Quanto maior forem estas características, maior é o atingimento de uma saúde baseada em valor. É importante salientar que a mudança nos modelos de remuneração é uma ação viabilizadora para o VBHC, mas não é a única. Outras ações simultâneas deverão ocorrer, como por exemplo, a integração de práticas assistenciais, forte investimento em tecnologia, interoperabilidade de sistemas e buscar sempre medir os desfechos que importam ao paciente e o custo de sua produção. Compartilhamento de riscos nos modelos de pagamento baseados em valor O compartilhamento de riscos é um componente estratégico dentro dos modelos de remuneração baseados em valor, pois equilibra incentivos financeiros e promove a responsabilidade entre os prestadores de serviços. Ao integrar mecanismos de Shared Savings e Shared Risk aos modelos de P4P, Bundled Payments e Capitation, cria-se um ambiente mais sustentável, no qual a eficiência e a qualidade são incentivadas sem comprometer a viabilidade econômica dos provedores de saúde. Os modelos de compartilhamento de risco podem ser aplicados de diferentes formas, dependendo do grau de responsabilidade assumida pelos prestadores de serviços: Shared Savings (Economias Compartilhadas) Os prestadores são incentivados a reduzir custos mantendo ou melhorando a qualidade da assistência. Se as despesas ficarem abaixo de um benchmark predefinido, os prestadores recebem uma parte das economias geradas. Shared Savings (Economias Compartilhadas) Os prestadores são incentivados a reduzir custos mantendo ou melhorando a qualidade da assistência. Se as despesas ficarem abaixo de um benchmark predefinido, os prestadores recebem uma parte das economias geradas. Conclusão A transição para modelos de pagamento baseados em valor é um caminho sem volta para tornar a saúde mais eficiente, acessível e centrada no paciente. Embora ainda haja desafios na implementação, a adoção dessas abordagens é essencial para garantir um sistema de saúde mais sustentável e focado no que realmente importa: a qualidade de vida e o bem-estar da população.

Categorias Modelos de Remuneração, Valor em Saúde Tags bundled payments, captitation, fee for service, modelos de remuneração, p4p, pay for performance, valor em saúde, vbhc Deixe um comentário

Ações Viabilizadoras para um sistema de Saúde Baseado em valor

9 de junho de 2023 Por IBRAVS
Ações viabilizadoras visando a melhora do cuidado no paciente

A busca por um sistema de saúde baseado em valor requer ações viabilizadoras para transformar o cuidado de saúde em uma jornada centrada no paciente e impulsionando resultados positivos. Utilizando a framework desenvolvido pelo Boston Consulting Group, discutiremos quatro ações viabilizadoras que contribuem para a efetividade para um sistema baseado em valor. 1. Interoperabilidade Primeiramente, temos a interoperabilidade. Para que um sistema de saúde baseado em valor seja eficiente, é essencial que diferentes sistemas sejam integrados de forma a permitir uma visão abrangente do paciente. Nesse sentido, plataformas e ferramentas de interoperabilidade desempenham um papel fundamental. Em resumo, ao analisar a questão da interoperabilidade, percebe-se que o conceito central é a integração de múltiplos sistemas. Em alguns casos, é até necessário designar profissionais específicos para capturar e fornecer informações relevantes, inclusive buscando dados diretamente com o paciente. Essa diversidade de fontes de dados é um aspecto importante a considerar. 2. Padrões de Benchmark Em seguida, existe uma necessidade de estabelecer padrões de comparação e utilizar ferramentas de análise de dados (analytics). Ainda mais, essas ferramentas permitem identificar as melhores práticas, entender as variações entre diferentes populações e desenvolver melhorias incrementais. Com isso, é possível adequar o suporte à tomada de decisão dos profissionais de saúde. Outro ponto relevante é a definição de benchmarks específicos. Por exemplo, podemos utilizar o indicador de tempo de permanência no hospital e estabelecer um padrão de comparação com base em agrupamentos de diagnósticos semelhantes, conhecidos como DRGs. Dessa forma, é possível comparar pacientes com perfis clínicos semelhantes e determinar se o indicador está dentro dos padrões desejados. Essa abordagem permite estabelecer metas claras para cada indicador, visando à melhoria contínua. 3. Modelos de remuneração A terceira ação viabilizadora, e uma das mais relevantes, está relacionada aos modelos de remuneração. Ao discutir o pagamento, é fundamental que os prestadores de serviços sejam recompensados de acordo com o valor entregue aos pacientes. Quanto aos modelos de remuneração com base em valor, existem diversas abordagens. E esses modelos combinam remuneração por procedimentos, orçamentos, tempo do profissional e valor entregue, buscando uma abordagem híbrida que incentive a qualidade e a eficiência. 4. Estruturas organizacionais Finalmente, a quarta ação viabilizadora envolve estruturas organizacionais, funções e incentivos que apoiam o comportamento desejado dos profissionais de saúde. Para garantir a entrega de valor, é necessário criar uma cultura que incentive práticas alinhadas aos objetivos do sistema de saúde baseado em valor. Por fim, fica evidente que a busca por um sistema de saúde baseado em valor exige ações viabilizadoras que promovam a integração, a análise de dados, a remuneração justa e o alinhamento organizacional. Somente através dessas medidas poderemos transformar o cuidado de saúde em uma jornada centrada no paciente, impulsionando a qualidade, eficiência e resultados positivos. A revolução na saúde está em marcha, e é hora de abraçarmos essa transformação em prol do bem-estar de todos.

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