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eficiência em saúde

Descentralização do cuidado só gera valor com foco em desfechos, coordenação e uso inteligente de recursos, afirma IBRAVS

9 de agosto de 2025 Por IBRAVS
descentralização do cuidado

Relatório internacional destaca os impactos positivos de levar o cuidado para mais perto do paciente — mas, segundo o IBRAVS, descentralizar não basta: é preciso integrar dados, medir resultados e alinhar incentivos para gerar valor real em saúde. Um novo relatório da consultoria internacional Frontier View analisa os impactos da descentralização do cuidado em países como Reino Unido, Singapura, Holanda e Bélgica. A pesquisa demonstra que, ao reorganizar os serviços de saúde para que o atendimento ocorra fora do ambiente hospitalar — sempre que clinicamente possível — os sistemas conseguiram melhorar o acesso, reduzir internações e otimizar recursos. Para o Instituto Brasileiro de Valor em Saúde (IBRAVS), as experiências são promissoras, mas os ganhos reais só acontecem quando essas estratégias são acompanhadas por coordenação, dados e foco em desfechos. O conceito de descentralização do cuidado envolve deslocar parte do cuidado para unidades básicas de saúde, ambulatórios ou até a casa do paciente. A proposta busca aliviar a pressão sobre os hospitais, ampliar o acesso, promover a continuidade do cuidado e oferecer uma experiência mais personalizada e humana. Resultados internacionais com a descentralização do cuidado Apresentado em julho, em Brasília, o relatório reúne dados concretos de quatro países. O Reino Unido registrou 800 mil internações a menos em 2022, em comparação com 2019, ao expandir o cuidado fora dos hospitais. Singapura poupou 7 mil dias de internação com o programa MIC@Home. A Holanda economiza 2 milhões de euros anualmente com o uso de cuidados remotos, enquanto a Bélgica reduziu em 15% as readmissões hospitalares de pacientes com insuficiência cardíaca. Descentralização do cuidado e a saúde baseada em valor (VBHC) Para o presidente do IBRAVS, César Abicalaffe, essas experiências evidenciam caminhos possíveis, mas não devem ser confundidas com uma adoção automática da saúde baseada em valor. “Descentralizar, por si só, não é sinônimo de gerar valor. Pode até criar novas ineficiências se for feita sem coordenação, sem mensuração de resultados e sem foco real naquilo que importa para o paciente”, afirma. Segundo ele, a descentralização só se alinha aos princípios do VBHC quando está a serviço de uma entrega de valor mensurável: quando contribui para melhorar os desfechos clínicos, otimizar a experiência do cuidado e utilizar recursos de forma sustentável. “O que define se há valor não é o local onde o cuidado acontece, e sim o impacto desse cuidado na vida das pessoas — se elas estão melhores, se evitamos complicações, se o sistema aprendeu com cada atendimento.” O papel do Brasil na descentralização com foco em valor O IBRAVS defende que o Brasil tem condições de avançar com uma agenda estruturada nesse campo, aproveitando sua tradição em atenção primária — como a Estratégia Saúde da Família — e conectando-a a uma lógica clara de accountability por desfechos. “Precisamos transformar isso em estratégia de saúde baseada em valor, com sistemas de informação integrados, avaliação contínua e modelos de remuneração que premiem resultados, e não apenas a produção de serviços”, afirma Abicalaffe. Desafios para transformar descentralização em valor real No país, diversas iniciativas locais já indicam movimentos em direção à descentralização, mas ainda de forma fragmentada e sem diretrizes nacionais. O desafio, segundo o IBRAVS, é transformar essas experiências em política pública estruturada, com metas claras e alinhamento entre os diferentes níveis do sistema. “Descentralizar não é um fim em si mesmo. Só se torna uma estratégia transformadora quando está a serviço do valor — para quem mais importa: o paciente.”

Categorias Valor em Saúde Tags atenção primária, coordenação do cuidado, descentralização do cuidado, desfechos em saúde, eficiência em saúde, Saúde baseada em valor, sistemas de saúde, vbhc Deixe um comentário

Quais valores devem ser considerados na saúde? Um olhar aprofundado para a saúde baseada em valor

27 de maio de 202527 de maio de 2025 Por IBRAVS
Um olhar aprofundado para a saúde baseada em valor

Tradicionalmente, a avaliação de valor na saúde tem se concentrado na eficácia de custos, com foco na eficiência técnica e alocativa. No entanto, a evolução das políticas públicas e dos marcos conceituais em diversos países tem ampliado esse entendimento, incorporando aspectos éticos, sociais e individuais. Essa discussão é central para a implementação efetiva do modelo de Value-Based Health Care (VBHC). Os quatro pilares do valor na saúde Segundo o relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS), “Uma revisão global de cuidados baseados em valor: teoria, prática e lições aprendidas”, publicado pelo Escritório de País para a Índia (2025), o conceito de valor na saúde vem sendo expandido por diferentes jurisdições. A União Europeia, por exemplo, propõe uma estrutura conceitual baseada em quatro dimensões: Valor pessoal, que se refere ao cuidado apropriado para atingir os objetivos individuais dos pacientes; Valor técnico, que visa alcançar os melhores desfechos com os recursos disponíveis; Valor alocativo, focado na distribuição equitativa de recursos entre todos os grupos de pacientes; Valor social, que considera a contribuição do sistema de saúde para a participação social e a conexão comunitária. Princípios orientadores do NICE (Reino Unido) O National Institute for Health and Care Excellence (NICE), no Reino Unido, também definiu princípios para valorar o cuidado em saúde que abrangem aspectos morais como o respeito à autonomia, a não maleficência, a beneficência e a justiça distributiva. Esses princípios orientam a difícil tarefa de equilibrar tensões entre abordagens utilitaristas, que buscam maximizar a saúde da população, e igualitaristas, que defendem uma distribuição justa de oportunidades em saúde. O NICE ainda destaca a importância da justiça processual, garantindo a participação pública nas decisões, a possibilidade de contestação e revisão de decisões, e o uso de mecanismos públicos de regulação. Decisões devem ser fundamentadas em evidências clínicas e de saúde pública, levando em conta a efetividade, a custo-efetividade, a escolha individual, condições raras e o chamado “princípio do resgate”. Há ainda uma ênfase clara na não discriminação por fatores como raça, gênero, deficiência, status socioeconômico, idade ou condições estigmatizadas. Critérios emergentes nas revisões recentes sobre valor O relatório da OMS também aponta que revisões recentes identificaram uma ampla gama de critérios utilizados para avaliar tecnologias em saúde. Estudos como os de Cromwell et al. e Zhang et al. mostram que critérios como benefícios à saúde, acessibilidade, impacto social, carga da doença, qualidade da evidência, custo-efetividade, ética, equidade, necessidades não atendidas e inovação são frequentemente utilizados. A importância relativa desses valores pode variar de acordo com o contexto, o tipo de intervenção e o momento histórico, reforçando a necessidade de abordagens flexíveis e adaptáveis. Novos frameworks para avaliação de valor Reconhecendo as limitações da análise tradicional de custo-efetividade (CEA), diversos esforços internacionais vêm propondo modelos mais abrangentes. O Segundo Painel sobre Custo-Efetividade nos Estados Unidos sugere a inclusão de expectativas dos pacientes, questões legais, éticas, culturais e logísticas. Já a International Society for Pharmacoeconomics and Outcomes Research (ISPOR) desenvolveu o modelo Value Flower, que incorpora critérios econômicos, preocupações com justiça social e externalidades das tecnologias, especialmente no contexto de medicamentos e vacinas com custos crescentes. De quem são os valores considerados? Outra questão crítica abordada no relatório da OMS é a origem dos valores que devem orientar os sistemas de saúde. Os valores individuais dos pacientes nem sempre coincidem com os objetivos coletivos dos formuladores de políticas públicas. Em campanhas de vacinação, por exemplo, o direito individual de recusa pode entrar em conflito com a necessidade de alcançar a imunidade coletiva. Países como o Reino Unido e estados norte-americanos como Oregon vêm adotando abordagens mais inclusivas, reconhecendo a importância de integrar múltiplas perspectivas no processo decisório. Mecanismos de participação cidadã Governos têm adotado diversas estratégias para promover a participação pública nas decisões em saúde. No Reino Unido, o NICE conta com um conselho de cidadãos como instância formal de engajamento. Outras iniciativas incluem júris de cidadãos, reuniões comunitárias, enquetes de opinião, consultas públicas online e documentos de consulta compartilhados com grupos representativos. Essas práticas reforçam a legitimidade e a transparência das decisões, alinhando-se aos princípios da justiça processual. Como agregar diferentes valores na tomada de decisão? Frente à diversidade de valores em jogo, o relatório destaca a importância de frameworks que combinem análises técnicas com processos deliberativos envolvendo múltiplos stakeholders. Modelos como a Análise de Decisão Multicritério (MCDA), o EVIDEM (Evidence and Value: Impact on Decision Making) e a Análise Orçamentária Programática Marginal (PBMA) permitem ponderar diferentes critérios conforme sua relevância no contexto analisado. A atribuição de pesos pode ser feita por meio de painéis Delphi ou experimentos quantitativos, oferecendo maior precisão e legitimidade ao processo decisório. Conclusão: uma abordagem contextual, inclusiva e dinâmica Conforme destaca o relatório da OMS, não existe uma fórmula única ou universal para definir os valores que devem nortear os sistemas de saúde. O modelo de saúde baseada em valor (VBHC) exige uma abordagem contextualizada, que combine eficiência, equidade, evidência científica e participação cidadã. Além dos tradicionais indicadores de desfechos clínicos e experiências relatadas pelos pacientes (PROMs, PREMs e CROMs), é fundamental considerar critérios éticos, sociais e culturais para assegurar que o sistema de saúde gere valor real para as pessoas.

Categorias Valor em Saúde Tags avaliação de tecnologias em saúde, custo-efetividade, decisão em saúde pública, eficiência em saúde, EVIDEM, frameworks de valor em saúde, ISPOR, justiça em saúde, MCDA, NICE, participação cidadã em saúde, vbhc Deixe um comentário

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