Conheça as principais lições internacionais de VBHC para o Brasil avançar na agenda de valor em saúde, com foco em resultados e sustentabilidade.
A transição para um sistema de saúde guiado por valor é um movimento global — e países que avançaram nessa agenda já mostram caminhos claros para acelerar a transformação no Brasil. O relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS) chamado “Uma revisão global de cuidados baseados em valor: teoria, prática e lições aprendidas”, publicado em 2025, destaca experiências dos Estados Unidos, Reino Unido, Holanda e outras nações, apontando os elementos que diferenciam sistemas que de fato evoluíram do modelo baseado em volume para o modelo baseado em valor.
Para além da retórica, a agenda de Value-Based Healthcare (VBHC) exige estrutura, incentivos, governança e cultura. E essas referências internacionais podem ser o norte para que o Brasil acelere sua rota.
“Adotar valor em saúde não é importar modelos — é aprender com o que funcionou no mundo e adaptar à nossa realidade, respeitando a complexidade do SUS, da saúde suplementar e de nossa demografia”, afirma Cesar Abicalaffe, presidente do IBRAVS. Segundo ele, o Brasil tem capacidade técnica e institucional para avançar, mas é preciso priorizar o paciente como unidade central, investir em dados e construir mecanismos de pagamento realmente vinculados a desfechos clínicos e experiência assistencial.
Governança e incentivos alinhados
Países que avançaram criaram políticas nacionais para o VBHC e estruturas regulatórias que premiam resultados, e não volume. Nos EUA, por exemplo, programas federais como o de readmissões hospitalares e incentivadores de qualidade demonstraram impacto direto em eficiência e desfechos. No Reino Unido, programas como o Getting It Right First Time contribuíram para reduzir variabilidade injustificada e elevar padrões assistenciais.
“Quando o financiamento passa a reconhecer quem entrega qualidade mensurável, toda a cadeia se organiza para melhorar — do médico ao hospital, da operadora ao paciente. Sem incentivos bem calibrados, o valor não escala”, ressalta Abicalaffe.
Medição consistente de resultados e experiência do paciente
O relatório reforça que sistemas maduros adotaram PROMs e PREMs de maneira estruturada, padronizada e integrada às decisões clínicas e financeiras. Na prática, isso significa medir não apenas procedimentos e indicadores operacionais, mas aquilo que realmente importa para o paciente.
As PROMs (Patient-Reported Outcome Measures) são instrumentos que capturam diretamente, pela perspectiva do paciente, os resultados de saúde alcançados — como dor, capacidade funcional, qualidade de vida, fadiga, mobilidade e impacto da doença no dia a dia.
Os PREMs (Patient-Reported Experience Measures), por sua vez, avaliam a experiência do paciente com o cuidado recebido — incluindo comunicação, acolhimento, acesso, coordenação e percepção de segurança e respeito.
Em países que avançaram no VBHC, essas informações orientam protocolos, reorganizam jornadas assistenciais, embasam contratos de remuneração e permitem comparar desempenho entre serviços e regiões, promovendo transparência e melhoria contínua.
“Sem ouvir o paciente e medir sua evolução real — funcional, emocional e social — a gestão em saúde fica incompleta. PROMs e PREMs são o termômetro do valor; eles traduzem impacto em vida real, não apenas em planilhas”, destaca Cesar Abicalaffe.
Tecnologia e interoperabilidade como infraestrutura crítica
Holanda e países escandinavos mostram que interoperabilidade, prontuários conectados e plataformas nacionais são decisivos para implementar VBHC em escala. A OMS destaca que dados clínicos integrados possibilitam transparência, comparação e gestão ativa de risco.
“Sem dados comparáveis, não há valor — há apenas percepções. O Brasil precisa transformar informação clínica em inteligência assistencial, e isso exige integração, governança e incentivos”, enfatiza Abicalaffe.
Foco em cuidado coordenado e continuidade assistencial
Cuidado fragmentado mina valor. Sistemas que avançaram reforçaram atenção primária robusta, integração entre níveis e modelos baseados em populações, com atenção à cronicidade e prevenção.
Cultura de valor: o fator invisível que define o sucesso
A OMS reforça que mudanças em incentivos e tecnologias são insuficientes sem cultura profissional voltada a valor, segurança e transparência de desfechos. Países líderes investiram em formação, engajamento clínico e aprendizado contínuo.
“Valor exige protagonismo clínico. Não se faz VBHC com dashboards — se faz com equipes engajadas, sensibilidade ao paciente e compromisso ético com resultados”, conclui Abicalaffe.
Um caminho brasileiro: inspiração global, construção local
O Brasil tem desafios particulares — como inequidades regionais, alta complexidade e fragmentação entre sistemas. Ao mesmo tempo, possui fortalezas: capilaridade da atenção primária, instituições consolidadas e capacidade técnica relevante.
A agenda de valor já começou no país, com iniciativas governamentais e privadas, e pode ganhar velocidade. “O futuro da saúde passa por medir, comparar, aprender e remunerar melhor quem cuida melhor. O Brasil está preparado — falta escala e coordenação. O IBRAVS está comprometido em ser ponte entre evidência, política pública e prática assistencial”, finaliza Abicalaffe.