A cultura Data-Driven na saúde nasce do simples: rotina, indicadores e constância. Uma transformação cultural mais poderosa que qualquer tecnologia.
Nos últimos anos, tornou-se comum ouvir que a saúde precisa se tornar “Data-Driven”. O termo aparece em apresentações, eventos, cursos, diagnósticos organizacionais e discursos de transformação digital. No entanto, a verdadeira mudança cultural não nasce de algoritmos sofisticados, inteligência artificial ou métodos estatísticos complexos. Ela começa muito antes — e de forma surpreendentemente simples.
O desenvolvimento de sistemas de Analytics para avaliar valor em saúde em diferentes linhas de cuidado tem evidenciado desafios importantes. Do ponto de vista metodológico, ainda há um caminho significativo a percorrer. Grande parte dos dados necessários — cerca de 80% — já existe, mas não está acessível de forma estruturada.
Além disso, os modelos de referenciais de Valor em Saúde são recentes no país; o próprio Framework lançado pelo IBRAVS, com seus domínios, indicadores e benchmarks, é um passo importante justamente porque cria uma base comum para aprendizado colaborativo entre instituições diversas.
Mesmo assim, algo profundo aconteceu: a cultura de gestão orientada por dados começou a se transformar.
A força do simples: indicadores, rotina e um comitê que olha para o dado
A mudança não surgiu de modelos matemáticos avançados. Surgiu do básico — e do que, na prática, ainda são poucos que fazem de forma consistente:
- Definir indicadores claros que representam resultados e processos assistenciais que impactam nos resultados.
- Estabelecer uma periodicidade real de acompanhamento (mensal, quinzenal, contínua).
- Criar um grupo de trabalho que se reúne para olhar, analisar e tomar decisões..
Mesmo sem uma governança sofisticada ou uma metodologia totalmente madura para identificar causas, avaliar impacto das mudanças, simular melhorias ou revisar metas de forma estruturada, o simples ato de olhar para o dado com regularidade transforma comportamento.
É quase como aquele princípio da física quântica em que o fenômeno muda quando é observado: quando os profissionais passam a acompanhar indicadores de forma consistente, algo profundo acontece.
Em diferentes projetos de implementação, é perceptível como essa rotina — ainda que apoiada em métodos simples — altera a forma de enxergar problemas, priorizar ações e tomar decisões. A disciplina de observar o dado cria um novo padrão mental, que substitui opiniões isoladas por evidências, reduz vieses e abre espaço para discussões mais técnicas e menos subjetivas.
É essa prática, e não a tecnologia, que inaugura a verdadeira cultura Data-Driven.
“Rápido e Devagar”: por que isso funciona tão bem?
Daniel Kahneman, em Rápido e Devagar, explica que grande parte das nossas decisões é guiada pelo que ele chama de Sistema 1: rápido, intuitivo, cheio de certezas e igualmente cheio de vieses.
A saúde é um terreno fértil para esse tipo de atalho mental.
Profissionais experientes têm percepções fortes, mas não necessariamente precisas. Muitas decisões são tomadas com base em:
– impressões;
– memórias recentes;
– experiências marcantes;
– preferências pessoais;
– narrativas intuitivas de causalidade.
O dado tem o poder de acionar o Sistema 2 — analítico, deliberado, desconfortável, mas muito mais preciso. E, quando um painel mostra taxas, tempos, variações e desfechos reais, a percepção muda. Surge um debate menos subjetivo e mais objetivo.
O dado não substitui a experiência, mas protege a decisão dos vieses da experiência.
A medicina personalizada e o aumento exponencial da complexidade
Há ainda um fator contemporâneo que torna a cultura Data-Driven indispensável: a personalização da medicina.
Hoje, dois pacientes com o mesmo diagnóstico podem ter jornadas assistenciais completamente distintas. Protocolos se adaptam, condutas variam de forma legítima, e o cuidado precisa ser mais individualizado. Isso cria um ambiente em que:
– o ajuste de risco é necessário, mas não é suficiente;
– fatores sociais influenciam adesão e comportamento;
– fatores psicológicos alteram desfechos de maneira significativa;
– fatores culturais moldam percepções e expectativas;
– e tudo isso muda ao longo do tempo, o elemento mais subestimado da gestão.
Em outras palavras, o cenário atual é muito mais dinâmico, complexo e não linear que o de décadas passadas.
Mesmo em modelos bem estruturados de linhas de cuidado, a gestão precisa equilibrar decisões entre custo e qualidade, seja para toda a linha assistencial, seja para um procedimento cirúrgico específico. E esse equilíbrio se torna ainda mais delicado quando há limitação de recursos financeiros — o que é realidade permanente no setor saúde.
Esse novo contexto faz com que a intuição, sozinha, não consiga mais acompanhar a complexidade das interações. A cultura Data-Driven deixa de ser diferencial e passa a ser necessidade.
O dado como elemento de redução de incerteza — sem eliminar a individualidade
Ao olhar para pacientes com necessidades únicas, a gestão se vê obrigada a equilibrar: personalização do cuidado e sustentabilidade da operação.
O dado não elimina a variabilidade individual, mas reduz a incerteza ao redor dela. Ajuda a:
– comparar riscos ajustados;
– monitorar resultados por subgrupos pequenos;
– controlar variações injustificadas;
– entender custos incrementais reais;
– identificar tendências antes que se tornem problemas;
– ajustar estratégias com base em fatos, não percepções.
No cenário da medicina personalizada, a ausência de dados não é apenas uma limitação — é um risco institucional.
Sofisticação como consequência, não como ponto de partida
A maturidade analítica certamente evolui com o tempo. E deve evoluir:
virão modelos mais complexos de ponderação, benchmarks mais ajustados, comparativos externos, análises preditivas e estudos de causalidade. Mas a sofisticação só tem valor quando existe disciplina e cultura para sustentá-la.
A cultura Data-Driven começa com hábito, não com ferramenta. Começa com um pequeno comitê, não com inteligência artificial. Começa com indicadores simples, não com regressões avançadas. A tecnologia refina a cultura;
mas é a cultura que dá sentido à tecnologia.
A transformação é cultural, não tecnológica
Cultura Data-Driven significa tomar decisões com base na melhor informação disponível, não nas impressões mais convincentes. Significa criar um ambiente em que o dado é o primeiro passo da conversa, e não o último.
Mesmo metodologias simples, quando aplicadas com consistência, já produzem uma ruptura profunda na forma de gerir saúde. Elas reduzem vieses, revelam padrões invisíveis à intuição e permitem decisões mais equilibradas em um cenário cada vez mais complexo e personalizado.
A verdadeira transformação Data-Driven não nasce da promessa tecnológica.
Ela nasce da prática cotidiana. E, quando essa prática se consolida, o impacto é maior do que qualquer ferramenta.